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Estrutura foliar de Aechmea Ruiz & Pav. subgênero Lamprococcus (Beer) Baker e espécies relacionadas (Bromeliaceae)

Leaf structure of Aechmea Ruiz & Pav. subgenus Lamprococcus (Beer) Baker and related species (Bromeliaceae)

Resumos

Com o objetivo de colaborar na delimitação taxonômica de Aechmea, subgênero Lamprococcus, foram estudadas as folhas de 25 táxons morfologicamente relacionados entre si (13 de Aechmea, três de Ronnbergia E. Morren & André, quatro de Araeococcus Brongn. e cinco de Lymania Read). Apesar das folhas serem todas hipoestomáticas e possuírem mesofilo dorsiventral portador de hipoderme, elas exibem características que podem ser utilizadas na delimitação de cada representante. Essas características incluem: posição dos estômatos na superfície foliar, presença ou não de oclusão nas câmaras subestomáticas, ocorrência ou não de grupos de fibras dispersos no mesofilo, natureza da parede das células que compõem as bainhas e extensões dos feixes vasculares e morfologia das células dos diafragmas, que interrompem os canais de aeração. A distribuição desses caracteres, nos diferentes táxons, permitiu elaborar uma chave de identificação, com base apenas na estrutura foliar.

Aechmea; anatomia foliar; taxonomia


With the aim of recognising useful features for taxonomic purposes, we studied the leaf anatomy of 25 taxa that are morphologically related (13 of Aechmea subgenus Lamprococcus, three of Ronnbergia E. Morren & André, four of Araeococcus Brongn. and five of Lymania Read). Although all leaves are hypostomatic and have a dorsiventral mesophyll with a hypodermis, they show some features that characterise each species. These features include, the stomata position on leaf surface, the presence or absence of substomatic occlusions, the occurrence or not of fibre clusters in the mesophyll, the nature of the cell walls of the vascular bundle sheaths and the cell morphology of the diaphragm that interrupt the air channels. By associating these characters we have elaborated an identification key for the studied taxa, based on the leaf structure.

Aechmea; leaf anatomy; taxonomy


Estrutura foliar de Aechmea Ruiz & Pav. subgênero Lamprococcus (Beer) Baker e espécies relacionadas (Bromeliaceae)1 1 Parte da dissertação de mestrado de E.M. Aoyama, UNESP, Rio Claro. 2 Autor para correspondência: mgsajo@rc.unesp.br

Leaf structure of Aechmea Ruiz & Pav. subgenus Lamprococcus (Beer) Baker and related species (Bromeliaceae)

Elisa M. Aoyama; Maria das Graças Sajo2 1 Parte da dissertação de mestrado de E.M. Aoyama, UNESP, Rio Claro. 2 Autor para correspondência: mgsajo@rc.unesp.br

Universidade Estadual Paulista, Departamento de Botânica, Caixa Postal 199, 13506-900 Rio Claro, SP, Brasil

RESUMO

Com o objetivo de colaborar na delimitação taxonômica de Aechmea, subgênero Lamprococcus, foram estudadas as folhas de 25 táxons morfologicamente relacionados entre si (13 de Aechmea, três de Ronnbergia E. Morren & André, quatro de Araeococcus Brongn. e cinco de Lymania Read). Apesar das folhas serem todas hipoestomáticas e possuírem mesofilo dorsiventral portador de hipoderme, elas exibem características que podem ser utilizadas na delimitação de cada representante. Essas características incluem: posição dos estômatos na superfície foliar, presença ou não de oclusão nas câmaras subestomáticas, ocorrência ou não de grupos de fibras dispersos no mesofilo, natureza da parede das células que compõem as bainhas e extensões dos feixes vasculares e morfologia das células dos diafragmas, que interrompem os canais de aeração. A distribuição desses caracteres, nos diferentes táxons, permitiu elaborar uma chave de identificação, com base apenas na estrutura foliar.

Palavras-chave:Aechmea, anatomia foliar, taxonomia

ABSTRACT

With the aim of recognising useful features for taxonomic purposes, we studied the leaf anatomy of 25 taxa that are morphologically related (13 of Aechmea subgenus Lamprococcus, three of Ronnbergia E. Morren & André, four of Araeococcus Brongn. and five of Lymania Read). Although all leaves are hypostomatic and have a dorsiventral mesophyll with a hypodermis, they show some features that characterise each species. These features include, the stomata position on leaf surface, the presence or absence of substomatic occlusions, the occurrence or not of fibre clusters in the mesophyll, the nature of the cell walls of the vascular bundle sheaths and the cell morphology of the diaphragm that interrupt the air channels. By associating these characters we have elaborated an identification key for the studied taxa, based on the leaf structure.

Key words:Aechmea, leaf anatomy, taxonomy

Introdução

Bromeliaceae é uma família predominantemente neotropical, exceto por Pitcairnia feliciana (A. Chev.) Harms & Mildbr. do oeste africano. Inclui cerca de 56 gêneros e 2.700 espécies (Luther & Sieff 1996) distribuídas em três subfamílias bem difinidas: Pitcairnioideae, Tillandsioideae e Bromelioideae (Smith & Downs 1974, 1977, 1979) e encontra-se amplamente distribuída no Brasil, principalmente na Mata Atlântica (Reitz 1983). Reúne plantas herbáceas, geralmente epífitas, com folhas dispostas em rosetas e densamente imbricadas num eixo curto que termina numa inflorescência do tipo espiga ou panícula, onde se observam brácteas de cores vistosas (Tomlinson 1969). Apresenta adaptações particulares que consistem, fundamentalmente, na progressiva redução estrutural e funcional das raízes e no concomitante desenvolvimento de características foliares, tais como parênquima armazenador de água, tecidos de sustentação e principalmente escamas epidérmicas. Considerando-se essa variabilidade estrutural, o estudo da anatomia foliar de seus representantes pode possibilitar especulações associadas à filogenia, fisiologia, ecologia e taxonomia (Braga 1977).

A anatomia foliar das Bromeliaceae vem sendo estudada, com objetivos diversos. Tomlinson (1969), numa revisão abrangente, caracterizou cada uma das três subfamílias com base, especialmente, na organização das escamas foliares, dos estômatos e do mesofilo. Alguns trabalhos descrevem as folhas de determinadas espécies, como o de Braga (1977) com bromélias da amazonia e o de Souza & Neves (1996) com quatro espécies de Tillandsia. Outros estudam as escamas foliares sob o ponto de vista fisiológico (Benzing & Burt 1970, Benzing et al.1976, Benzing 1976) ou relacionam a morfologia dessas estruturas com a filogenia da família (Strehl 1983). Determinados estudos utilizaram a morfo-anatomia foliar no entendimento taxonômico de diferentes grupos, como o de Robinson (1969) que delimitou as espécies de Connelia, Cottendorfia e Navia (Pitcairnioideae) e o de Sajo et al. (1998), que analisaram a estrutura foliar de 68 espécies de Bromeliaceae, descrevendo seis grupos distintos.

Aechmea Ruiz & Pav., com cerca de 135 espécies e oito subgenêros (Podaechmea, Lamprococcus, Aechmea, Ortgiesia, Platyaechmea, Pothuava, Macrochordion e Chevaliera), é o maior gênero da subfamília Bromelioideae (Smith & Downs 1979). Representa um grupo taxonomicamente problemático, cujos limites conceituais não são bem delineados e onde se encontram reunidos táxons, morfologicamente, discordantes pela inexistência de gêneros que possam abrigá-los (Smith & Downs 1979). Segundo Leme (1997), recentemente, foram criados os gêneros Lymania Read e Ursulaea Read & H.U. Baensch a partir de táxons de Aechmea.

Com objetivo de colaborar no entendimento taxonômico das espécies de Aechmea, subgênero Lamprococcus, foi realizado um estudo comparativo da estrutura foliar de 25 táxons, sendo que 13 deles pertencem ao grupo alvo (Aechmea, subgênero Lamprococcus) e os demais representam táxons intimamente relacionados a ele.

Material e métodos

O material estudado é proveniente da coleção de plantas vivas de Elton M.C. Leme, situada no local denominado "Refúgio dos Gravatás", Teresópolis, RJ, onde as espécies encontram-se assim numeradas:

Subgênero Lamprococcus:

Aechmea andersonii H. Luther & Leme – 4006

Aechmea capixabae L.B.Sm. – 542

Aechmea corymbosa (Mart. ex Schult. f.) Mez – 3227

Aechmea farinosa (Regel) L.B. Sm. – 4322

Aechmea fulgens Brongn. – 1576 e 4232

Aechmea glandulosa Leme – 4380

Aechmea racinae L.B. Sm. – 977

Aechmea victoriana L.B. Sm. – 333

Aechmea victoriana var. discolor M.B. Foster – 004

Aechmea warasii E. Pereira – 734 e 210

Aechmea weilbachii var. albipetala Leme & A. Costa – 2679

Aechmea weilbachii var. weilbachii Didr. – 168

Aechmea weilbachii var. viridisepala E. Pereira & Leme – 552

Espécies morfologicamente relacionadas:

Araeococcus flagelifolius Harms – 4044

Araeococcus micranthus Brongn. – 4174

Araeococcus montanus Leme – 4371

Araeococcus parviflorus (Mart. & Schult. f.) Lindm. – 4651 e 2992

Lymania alvimii (L.B. Sm. & Read) Read – 807

Lymania azurea Leme – s/n

Lymania corallina (Brongn. ex Beer) Read – 2981

Lymania globosa Leme – 2989

Lymania smithii Read – 4326 e 2972

Ronnbergia brasiliensis E. Pereira & I.A. Penna – 3023

Ronnbergia carvalhoi Martinelli & Leme – s/n

Ronnbergia neoregelioides Leme – 4368.

Foram retiradas amostras da porção mediana do limbo, de folhas adultas coletadas da periferia das rosetas. O material foi fixado em FAA 50 e posteriormente transferido para etanol 50% (Johansen 1940). Os cortes transversais, obtidos à mão livre com o auxílio de lâmina de barbear, foram clareados em solução de hipoclorito de sódio 20%, corados com azul de astra (solução aquosa 1%) e safranina aquosa 1% (Bukatsch 1972) e montados em gelatina glicerinada. Foram realizados testes para detectar a presença de lignina com floroglucina acidificada (Jensen 1962); amido com solução de Lugol (Sass 1951); sílica com fenol líquido (Johansen 1940) e cristais de oxalato de cálcio com ácido súlfurico a 50% (Chamberlain 1932). Os resultados foram registrados através de fotomicrografias, obtidas em fotomicroscópio com projeção da escala micrométrica.

Resultados e Discussão

Todas as folhas estudadas são revestidas por epiderme uniestratificada, cujas células apresentam espessamento pronunciado nas paredes anticlinais e periclinal interna, resultando num lume diminuto (figura 1). Embora em algumas espécies de Ronnbergia E. Morren & André e Aechmea Ruiz & Pav. as paredes celulares desse tecido sejam lignificadas, não se observa a presença de lignina na epiderme da maioria dos representantes estudados (tabela 1). Nas faces adaxial e abaxial da epiderme, de todas as folhas, observam-se escamas (figuras 6, 9) e o mesofilo é sempre dorsiventral (figuras 2-13). Corpúsculos silicosos, associados ao controle da luminosidade (Krauss 1949), são freqüentes no interior das células epidérmicas, principalmente na face adaxial (figura 1).



         

As folhas são hipoestomáticas e, nas três espécies de Ronnbergia estudadas, os estômatos se localizam abaixo do nível das demais células epidérmicas (figuras 2, 3; tabela 1) o que, segundo Tomlinson (1969), dificultaria a perda de água. Nas demais espécies, os estômatos ocorrem no mesmo nível das células epidérmicas (figura 11; tabela 1).

Estômatos com câmaras subestomáticas ocluídas, como observado na figura 11, ocorrem na maioria das espécies de Aechmea e em Araeococcus micranthus Brongn. (tabela 1). Tal oclusão, originada de células hipodérmicas modificadas que se projetam para o interior da câmara subestomática, foi também observada em Aechmea echinata (Leme) Leme por Sajo et al. (1998). Segundo Krauss (1949), essa estrutura teria a função de suporte mecânico, mantendo a abertura do poro mesmo quando a folha está flácida.

Adjacente às duas superfícies foliares, observa-se em todas as espécies a ocorrência de uma hipoderme (tabela 2), conforme descrito por Tomlinson (1969) para outros representantes da família. Esse tecido, mais desenvolvido na face adaxial, é constituído por várias camadas celulares e, dependendo da forma e grau de espessamento parietal, ele pode ser reconhecido como um tecido mecânico ou armazenador de água (aqüífero).

O tecido mecânico ocorre próximo às duas faces foliares e é formado por uma a duas camadas de células de lume reduzido, cujas paredes espessadas apresentam depósito de lignina em algumas espécies de Aechmea (tabela 2). Na face abaxial o tecido mecânico é interrompido pelas câmaras subestomáticas (figuras 2, 3). O tecido armazenador de água ou aqüífero ocupa posição mais interna e é composto por células aclorofiladas de paredes delgadas (figuras 2-9, 11-13), cujo número de camadas, forma e tamanho celular variam de acordo com a espécie considerada.

Na face adaxial, de folhas de determinadas espécies, o limite entre a hipoderme aqüífera e o tecido fotossintetizante não é nítido (figuras 4, 8). Em outras, o tecido armazenador de água é bastante distinto e formado por células anticlinalmente desenvolvidas, que muitas vezes ocupam a metade ou mais do tecido foliar (tabela 2), como observado em Ronnbergia neoregelioides Leme (figura 3), Araeococcus micranthus (figura 5), Lymania alvimii (L.B. Sm. & Read) Read e em algumas espécies de Aechmea (figura 11-13). Na face abaxial, a região aqüífera da hipoderme é composta por uma a duas camadas de células isodiamétricas e menores, quando comparadas com as presentes na face adaxial (figura 6). Dentre as folhas estudadas, somente em Aechmea corymbosa (Mart. ex Schult. f.) Mez não se verifica a ocorrência de um tecido armazenador de água (tabela 2); nessa espécie (figura 10) todas as células parenquimáticas do mesofilo são portadoras de cloroplastídeos.

O clorênquima situa-se entre as hipodermes das duas faces foliares e pode ser contínuo, como em Lymania corallina (Brongn. ex Beer) Read (figura 6), ou apresentar canais longitudinais de aeração, ocasionalmente interrompidos por diafragmas de células braciformes (figuras 4, 7-9), como nas demais espécies estudadas (tabela 2). Tais canais, situados entre os feixes vasculares e unidos às câmaras subestomáticas, apresentam diâmetro variável e células alongadas (figura 4), isodiamétricas (figura 8) e estreladas (figuras 7, 9), dependendo da espécie considerada (tabela 2). Segundo Gilmartin et al. (1989), tais canais facilitariam a ventilação foliar, em espécies de ambientes mésicos.

Em muitos representantes, as células do clorênquima se dispõem de forma concêntrica ao redor dos feixes vasculares (figura 14), como em folhas com síndrome Kranz. Entretanto, conforme comentado por Sajo et al. (1998), somente estudos fisiológicos sobre as vias fotossintéticas dessas plantas poderão confirmar a ocorrência de metabolismo C4 em Bromeliaceae.

Nas folhas, de algumas espécies de Araeococcus Brongn. (figura 5), de Lymania Read (figura 8) e de Aechmea (figuras 7, 9), observam-se grupos de fibras (fb) não associados aos feixes vasculares e dispersos no clorênquima. Tais fibras podem ser ou não lignificadas (tabela 2). Em Aechmea weilbachii var. viridisepala E. Pereira & Leme (figura 7) e A. weilbachii Didr. var. weilbachii ocorrem também grupos de fibras lignificadas alinhados próximos às duas faces foliares.

Em todas as espécies estudadas, os feixes vasculares colaterais dispõem-se em uma única série nas lâminas, onde os maiores se alternam com menores (figuras 2-13). Em Aechmea corymbosa (figura 10), que não possui tecido armazenador de água, os feixes aparecem na região central do mesofilo; nas folhas onde o tecido armazenador de água é desenvolvido os feixes encontram-se deslocados para a face abaxial (figuras 2-3, 5, 11-13).

Os feixes vasculares de maior calibre apresentamse, em Ronnbergia (figuras 2-3), em algumas espécies de Araeococcus, em Lymania corallina (figura 6), nas três variedades de Aechmea weilbachii (figura 7) e em A. glandulosa Leme (figura 9), envolvidos por uma bainha de células portadoras de paredes lignificadas (tabela 3). Nas demais espécies de Aechmea (figuras 10-13), de Lymania e de Araeococcus as células da bainha do feixe possuem paredes espessadas, mas não lignificadas (tabela 3). Nesses feixes, também, é comum a ocorrência de calotas de células com paredes espessadas adjacentes ao xilema e ao floema (figuras 8, 10, 12; tabela 3); tais calotas, ausentes em Araeococus micranthus (figura 5) e A. flagelifolius Harms, são formadas por células de paredes lignificadas nas três variedades de Aechmea weilbachii e A. glandulosa, e por células de paredes celulósicas, nos demais representantes estudados (tabela 3).

Nos feixes vasculares de menor calibre observamse, para a maioria das espécies (tabela 3), extensões de bainha formadas por células de paredes espessadas (figuras 4, 7, 11-13). Nas três variedades de Aechmea weilbachii (figura 7) e em Aechmea glandulosa (figura 9), as células dessas extensões possuem paredes lignificadas, enquanto que nos demais representantes as paredes são de natureza celulósica (tabela 3).

Grãos de amido no interior das células fotossintetizantes, como observado na figura 8, ocorrem em Araeococcus parviflorus (Mart. & Schult. f.) Lindm. e na maioria das espécies de Lymania e Aechmea. Estes grãos de amido também são freqüentes nas células da endoderme, nas folhas da maioria das espécies (tabela 2).

Em Ronnbergia brasiliensis Pereira & I.A. Penna, Araeococcus micranthus, Lymania alvimii, Aechmea capixabae L.B.Sm. e A. racinae L.B.Sm. ocorrem idioblastos portadores de ráfides na região aqüífera da hipoderme (tabela 2); em Ronnbergia brasiliensis, eles também estão presentes no parênquima fotossintetizante.

Analisando as folhas estudadas, nota-se que em Ronnbergia os estômatos se situam abaixo da epiderme (figuras 2, 3) e nos demais gêneros eles ocupam o mesmo nível das células desse tecido (tabela 1). Também nas espécies de Ronnbergia, as folhas possuem hipoderme aqüífera desenvolvida e os diafragmas que interrompem os canais de aeração são formados por células alongadas (tabela 2).

Em Araeococcus, as folhas são bastante variáveis (figuras 4, 5): algumas espécies possuem hipoderme aqüífera evidente e grupos de fibras não associados aos feixes vasculares (figura 5); em outras, o limite entre as regiões mecânicas e aqüífera da hipoderme não é nítido e não se observam grupos de fibras no mesofilo (figura 4).

As folhas de Lymania se assemelham pela ocorrência de hipoderme aqüífera pouco desenvolvida (figuras 6, 8), com exceção de L. alvimii onde esse tecido ocupa mais da metade do mesofilo (tabela 2). Grupos de fibras não lignificadas encontram-se distribuídos no mesofilo, da maioria das espécies desse gênero (tabela 2), e, nas folhas que possuem canais de aeração, os diafragmas são formados por células isodiamétricas (figura 8).

Para as espécies de Aechmea, subgênero Lamprococcus, foi possível reconhecerem-se dois grupos distintos: um, abrangendo Aechmea glandulosa e as três variedades de Aechmea weilbachii, que possuem folhas com hipoderme aqüífera pouco desenvolvida e grupos de fibras lignificadas dispersas no mesofilo (figuras 7, 9); nesse mesmo grupo, as células que envolvem os feixes vasculares e que formam as extensões de bainha também possuem paredes lignificadas. No outro grupo de Aechmea, que reúne as demais espécies do subgênero, a maioria das folhas possui hipoderme aqüífera evidente, que ocupa a metade ou mais do mesofilo (figuras 11-13); esse tecido armazenador de água só não aparece nas folhas de A. corymbosa, que é uma espécie amazônica e vive num ambiente com alto teor de umidade (E.M.C. Leme, dados não publicados). Além de parênquima aqüífero desenvolvido, em todas as folhas dessas espécies, as células que envolvem os feixes vasculares e que formam as extensões de bainha não possuem paredes lignificadas. Todos os representantes apresentam folhas com canais de aeração interrompidos por células estreladas, com exceção de A. fulgens Brongn., onde essas células são isodiamétricas, como observado em Lymania. Câmaras subestomáticas ocluídas também são freqüentes nas espécies desse grupo de Aechmea (tabela 1).

Comparando as folhas dos diferentes táxons estudados, é possível dizer que Ronnbergia difere de Aechmea subgênero Lamprococcus por apresentar estômatos aprofundados na epiderme. Em Lymania, L. alvimii apresenta folhas semelhante às de algumas espécies de Aechmea, que também possuem hipoderme aqüífera evidente (figuras 11, 12); entretanto esta espécie é facilmente reconhecida pela ausência dos canais de aeração no mesofilo, que ocorrem nas folhas de todas as Aechmea (tabela 2). No caso de Araeococcus, algumas folhas possuem hipoderme aqüífera pouco desenvolvida (figura 4), como algumas espécies de Aechmea (figuras 7, 9); entretanto, ao contrário de Araeococcus, nas folhas de Aechmea com hipoderme aqüífera pouco desenvolvida é constante a presença de grupos de fibras não associados aos feixes vasculares (figura 12; tabelas 2, 3).

Determinados caracteres foliares, como a presença de células parenquimáticas dispostas de forma radiada ao redor dos feixes vasculares e grãos de amido no mesofilo são de ampla ocorrência nas espécies estudadas. Outros, como ausência de hipoderme aqüífera, ausência de canais de aeração e presença de lignina, nas células epidérmicas, aparecem em poucos táxons estudados. Combinando-se as características, foi possível elaborar a seguinte chave de identificação para as espécies de Aechmea subgênero Lamprococcus e táxons relacionados:

1. Hipoderme aqüífera ausente ............................................ Aechmea corymbosa

1. Hipoderme aqüífera presente

2. Estômatos sempre em nível abaixo das demais células epidérmicas

3. Células epidérmicas com paredes não lignificadas ....... Ronnbergia carvalhoi

3. Células epidérmicas lignificadas

4. Parênquima clorofiliano e hipoderme aqüífera com idioblastos portadores de ráfides ....................................................... Ronnbergia brasiliensis

4. Parênquima clorofiliano e hipoderme aqüífera sem idioblastos portadores de ráfides .................................................. Ronnbergia neoregelioides

2. Estômatos sempre no mesmo nível das demais células epidérmicas

5. Câmaras subestomáticas ocluídas

6. Grupos de fibras no mesofilo ausentes ................. Aechmea capixabae

6. Grupos de fibras no mesofilo presentes

7. Fibras lignificadas

8. Fibras dispersas no mesofilo e distribuídas paralelamente à superfície da lâmina

9. Presença de clorênquima em disposição radiada ao redor dos feixes vasculares .............. Aechmea weilbachii var. weilbachii

9. Ausência de clorênquima em disposição radiada ao redor dos feixes vasculares ............ Aechmea weilbachii var. viridisepala

8. Fibras dispersas somente no mesofilo

10. Feixes vasculares de menor calibre sem extensão de bainha ...................................................Araeococcus micranthus

10. Feixes vasculares de menor calibre com extensão de bainha

11. Hipoderme mecânica formada por células lignificadas .... ................................. Aechmea weilbachii var. albipetala

11. Hipoderme mecânica formada por células não lignificadas .................................... Aechmea glandulosa

7. Fibras não lignificadas

12. Hipoderme mecânica formada por células lignificadas .............. .............................................................. Aechmea andersoni

12. Hipoderme mecânica formada por células não lignificadas

13. Canais de aeração interrompidos por células isodiamétricas ............................................................. Aechmea fulgens

13. Canais de aeração interrompidos por células estreladas

14. Células epidérmicas lignificadas ..... Aechmea victoriana

14. Células epidérmicas não lignificadas

15. Células do mesofilo com grãos de amido ................ ................................................... Aechmea warasii

15. Células do mesofilo sem grãos de amido ................ .............................. Aechmea victoriana var. discolor

5. Câmara subestomática não ocluída

16. Presença de grupos de fibras no mesofilo

17. Fibras lignificadas ................................ Araeococcus flagelifolius

17. Fibras não lignificadas

18. Feixe de maior calibre com bainha de células lignificadas ......... ................................................................. Lymania corallina

18. Feixe de maior calibre com bainha de células não lignificadas

19. Hipoderme mecânica formada por células lignificadas ......... ............................................................ Aechmea farinosa

19. Hipoderme mecânica formada por células não lignificadas

20. Canais de aeração ausentes ............... Lymania alvimii

20. Canais de aeração presentes

21. Canais interrompidos por células estreladas ........... .................................................. Aechmea racinae

21. Canais interrompidos por células isodiamétricas

22. Bainha de clorênquima com disposição concêntrica nos feixes vasculares ........................ ............................................... Lymania smithii

22. Ausência de clorênquima com disposição concêntrica nos feixes vasculares ........................ .............................................. Lymania globosa

16. Ausência de grupos de fibras no mesofilo

23. Células do mesofilo com grãos de amido ... Araeococcus parviflorus

23. Células do mesofilo sem grãos de amido

24. Bainha de clorênquima com disposição radiada nos feixes vasculares .......................................... Araeococcus montanus

24. Ausência de clorênquima com disposição radiada nos feixes vasculares .................................................... Lymania azurea

Agradecimentos – Ao Dr. Elton M.C. Leme por ter fornecido e identificado o material; a Suzana Lúcia Proença pela revisão da nomenclatura botânica; ao CNPq pela bolsa de produtividade em pesquisa de M.G. Sajo (Processo 303517/022).

(recebido: 2 de outubro de 2002; aceito: 11 de setembro de 2003)

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  •  

  • 1
    Parte da dissertação de mestrado de E.M. Aoyama, UNESP, Rio Claro.
    2
    Autor para correspondência:
  • Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      22 Jul 2004
    • Data do Fascículo
      Dez 2003

    Histórico

    • Aceito
      11 Set 2003
    • Recebido
      02 Out 2002
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